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Série fotográfica retrata violência contra a mulher

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Formada em cinema, artes cênicas e fotografia, Valérie Mesquita, 23 anos, transformou seu incômodo em relação à violência doméstica no projeto “Entre Nós”, uma série de imagens impactantes que trazem uma profunda reflexão sobre esse grave problema.

As mulheres retratadas no projeto são atrizes, mas suas histórias são reais. O objetivo de Valérie é incomodar as pessoas a ponto de gerar uma discussão sobre o tema. Ela diz que seu intuito não é transformar a iniciativa numa campanha – “pois acho que campanhas tendem a apontar o dedo na cara das pessoas” -, e conta que pretende espalhar as fotos pela cidade de São Paulo para que a população que não tem acesso à internet também seja impactada pelo seu trabalho.

A TheBridge conversou com a fotógrafa, cujo primeiro projeto fotográfico voltado para um tema social já vem causando uma enorme reflexão. Leia a seguir:

Como surgiu a ideia do projeto?
Na verdade, a ideia surgiu por conta de um caso de violência ocorrida com uma pessoa muito próxima e querida. Por acaso ou coincidência, começaram a chegar até mim muitas histórias sobre mulheres que sofrem violência em suas casas, e isso começou a me incomodar demais – e, de repente, aconteceu esse caso. Isso me tirou do eixo (temos a errônea impressão que coisas ruins só acontecem com os outros, não?) e precisei agir de alguma maneira. Pensei, então, “o que eu sei e posso fazer?”. “Eu posso fotografar”. O projeto foi, então, a forma que encontrei de responder ao ocorrido, de me posicionar, de dizer “isso é errado, não concordo!”, e surgiu praticamente pronto na minha cabeça. Passei, então, a pesquisar sobre o tema, e a conversar com muitas mulheres – que haviam, ou não, sofrido violência doméstica. Percebi que a coisa era muito maior do que eu poderia imaginar, e que não se tratava apenas de casos específicos e pontuais, mas sim de um problema com proporções gigantescas, que afeta muita, muita gente.

O que pretende com esse projeto?
A partir do entendimento de que se trata de um problema muito grande e mesmo assim pouco falado no Brasil, tenho como intenção incomodar, lançar um olhar sobre essa questão e tentar gerar uma discussão sobre o assunto. Não tenho a pretensão de trazer as soluções nem as respostas para o problema, mas gostaria que, quando as pessoas se deparassem com essas imagens, fossem levadas a uma reflexão sobre aquilo que elas veem. O objetivo, portanto, não é fazer uma campanha – pois acho que campanhas tendem a apontar o dedo na cara das pessoas – mas sim tentar gerar essa discussão.

Quem são as mulheres que toparam emprestar o rosto para a iniciativa?
Todas as mulheres retratadas no projeto são atrizes e amigas queridas, envolvidas e preocupadas com causas sociais e feministas – mas encenando histórias reais, que pesquisei ao longo do ano. A escolha de trabalhar com atrizes, ao invés de fotografar mulheres que tenham sofrido violência real foi proposital, pois acho que muitas vezes os personagens são mais potentes do que as pessoas reais. Eles abrem a possibilidade de você se identificar de forma mais rápida, sem a barreira dos estereótipos. Também posei para uma das imagens, porque acredito que quando você se coloca no meio da questão, não se ausenta dela: também sou mulher e isso pode acontecer um dia comigo.

De que forma este seu projeto pretende fomentar o debate sobre a violência doméstica?
Infelizmente – e por infinitas razões altamente complexas e individuais – uma das características da violência doméstica é o silêncio. Muitas mulheres que sofrem violência não contam para ninguém, e disfarçam quando são questionadas de onde vem aqueles machucados e o que aconteceu com elas. Acho interessante escancarar estes machucados, colocando as personagens olhando diretamente, cara a cara com quem as olha. É, mesmo que não explicitamente, uma forma de “obrigar” as pessoas a olharem para uma questão: as fotos são claras e, se falassem, diriam “olhe para mim, olhe meu rosto machucado. De onde você acha que isso vem?”. A intenção é que isso gere um incômodo a ponto de provocar uma reflexão.

 


Quais são as principais barreiras enfrentadas pelas vítimas da violência doméstica?
O preconceito, o silêncio, a falta de amparo, a culpa, a incredulidade, o não ter para onde ir. Mas creio que, acima de tudo, o medo. Medo de falar, medo de ser julgada, medo de ser culpada pelo crime que sofreu, medo de denunciar e piorar sua situação quando voltar para casa. Medo de morrer.

Como governo, empresas e sociedade civil poderiam se unir no combate a esse tipo de crime no Brasil e no mundo?
Como disse, não pretendo ter as respostas para nada, então só posso supor – e essa é uma discussão longa e complexa, que vai muito longe. Falando em um português claro, creio que o buraco é muito, muito embaixo. Poderia citar várias ideias do que poderia ser feito: existem boas leis para lidar com estes crimes, mas elas precisam ser colocadas efetivamente em prática, pois a existência de uma lei não implica em seu correto cumprimento; as penas para os criminosos poderiam ser maiores e mais rigorosas; os mecanismos de denúncia poderiam ser mais efetivos, etc., etc., etc. Mas acredito que enquanto a mentalidade das pessoas não mudar, enquanto a agressão (física, verbal, sexual e em todos os níveis) à mulher continuar sendo considerada normal, enquanto a vítima continuar sendo culpabilizada (“ela provocou”), nada disso será suficiente. Acredito que o primeiro passo é a reflexão, é o entendimento de que existe um problema e que ele é muito sério. Acredito que se todos os setores citados (governo, empresas e sociedade civil) partissem desse ponto – o do entendimento e diagnóstico de um problema – cada um poderia começar a agir na parte que lhe cabe, trabalhando conscientemente em prol de uma melhoria da situação.

Que lições você tirou com esse projeto?
Muitas, muitas mesmo. Não sei nem bem por onde começar. Aprendi que a violência doméstica é algo realmente complexo, que cada caso é um caso e que não podemos de maneira alguma julgar alguém por não contar ou não denunciar – mas sim devemos tentar entender o que gera cada tipo de reação. Descobri que este é um problema que acontece com MUITA gente, em todos os lugares, idades e classes sociais. Descobri dados, fatos e histórias, de gente próxima e de gente distante. Descobri que as atrocidades que as pessoas podem fazer com as outras não tem limite. Percebi, enfim, que o mundo pode ser um lugar bem pior do que conseguimos imaginar, mas que, ao mesmo tempo, pode ser muito melhor: para cada história horrorosa de violência que ouvi, ouvi uma história de superação, de mulheres se ajudando, dando esperança, de pessoas tentando fazer o bem ao próximo.

Essas fotos vão virar uma exposição? Quais são os próximos passos?
Uma das fotos do projeto foi convidada a participar das Bienais Internacionais de Roma e de Assis, na Itália, em 2014 – só é permitido o envio de uma imagem por artista. Tenho sim a intenção de expor as fotos, mas não em uma galeria e sim nas ruas. A partir de agora vou começar a correr atrás de autorizações das subprefeituras de São Paulo para espalhar cartazes com as fotos pelos muros da cidade. Acredito que a internet é um meio maravilhoso de difusão, mas não é suficiente, pois muita gente ainda não tem acesso à rede. Acho que seria bastante impactante estar, por exemplo, saindo do metrô de manhã e dar de cara com uma dessas mulheres.

>> Saiba mais sobre o projeto: www.projetoentrenos.com.

 

2 Comments

  1. super competente este trabalho!!!
    que bom que este assunto está vindo ao publico…super importante!!!
    Mulher que sofre com isso deve sim procurar seus direitos !!!!! E estes homens precisam de tratamento e apoio também!!!!

  2. Pingback: Projeto Entre Nós, por ValérieMesquita | Resgate Mulher

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