Ex-usuária de crack transforma música em mensagem de perseverança e determinação | TheBridge Global | Blog

Ex-usuária de crack transforma música em mensagem de perseverança e determinação

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Quem ouve a voz doce da soprano Lis Huerta, 48 anos, não imagina as agruras vividas pela ex-usuária de crack que, há seis meses, decidiu dar um basta à vida marginalizada pelo vício, vergonha e humilhação experimentadas ao longo dos 20 anos que a separaram da família, amigos e dignidade.

Aos 28 anos, Lis entrou em uma viagem que para muitos, termina em presídio ou morte prematura. De uma simples curiosidade ao vício, a figura de mãe e profissional foi aos poucos sendo substituída pela de usuária de cocaína, crack e álcool, afastando-a da convivência social e familiar e mantendo-a cada vez mais distante da vida tranquila e estável que ela havia planejado para si e para os filhos.

Após seis anos de entrega às drogas, ela procurou os familiares e amigos em busca de ajuda, que se mobilizaram para interná-la em uma clínica de recuperação. Nos dez anos seguintes, Lis permaneceu sóbria, mas em contato constante com a iminência de uma recaída, luta diária travada por todos os ex-dependentes.

Lis voltou às ruas, à fome e à miséria extrema. Dormiu no chão, comeu lixo, perdeu tudo o que lhe mantinha conectada à sociedade e a realidade que outrora vivera. Foram quatro anos intensos, de acesso a todo o tipo de devassidão humana, de uma existência sem qualquer outro propósito senão manter-se 24 horas drogada, em total alienação.

Acolhida pela mãe, peça fundamental na senda da recuperação, Lis luta atualmente para resgatar tudo o que somente a sobriedade é capaz de lhe oferecer: o amor dos filhos, o respeito da sociedade e da família, o apoio de amigos, a saúde, o bem estar e, principalmente, a autoestima.

Há seis meses ela dedica-se diariamente a manter a recaída apenas como uma possibilidade remota. Para vencê-la, entrega-se de corpo e alma à música, estudando canto e vem se apresentando com a Orquestra de Bandolins de São Paulo.

Leia a seguir a entrevista que a TheBridge fez com a soprano:

Como a música influencia na sua recuperação?
A música é algo divino. Eu a ouço desde o ventre de minha mãe. Até hoje só conheci uma pessoa que não gosta de música e, posso dizer com propriedade, esta pessoa não é feliz. A influência que a música tem na minha recuperação é exatamente essa “divindade” que ela transmite. A música é um dom que Deus me deu e, portanto, manter a sobriedade é utilizar com amor e reconhecimento esse presente que o Criador me ofereceu e mantém até hoje em minha vida. Todos os dias eu toco e canto um louvor, que dei o nome de “meu hino da vitória”. Não é de minha autoria, pois não sou compositora e também não tem esse título, mas gosto de chamar assim, porque uso como um mantra.

Qual o maior desafio que você enfrenta para manter a sobriedade?
Lidar com a realidade é o maior desafio para se manter sóbria. Lembranças, cobranças, desconfianças, acusações, são fatores que, se eu não tivesse no firme propósito da sobriedade, já teria tido outra recaída. Às vezes são tantas adversidades e falta de reconhecimento, principalmente por parte da família, que dá vontade de usar novamente. Mas, graças  à Deus, a sanidade me permite permanecer nessa linha muito tênue que separa a loucura (vício) da sobriedade.

E quais suas motivações?
Minha vida e saúde em primeiro lugar.Depois, mas não menos importante, a reconquista dos meus 3 filhos, que sofreram demais com a minha drogadição. Hoje tenho o carinho, o amor e o orgulho deles , que tecem elogios e me enchem de “mãe, eu te amo”. Quer motivação maior?

Quando você olha para trás, qual a maior lição que sua trajetória deixou?
É doloroso olhar para trás, mas é inevitável. Eu escolhi o caminho mais difícil, menos correto, que adoeceu uma família inteira. Sim, porque a dependência química é uma doença incurável. Quando relembro tudo que vivi ao longo desses 20 anos de drogadição, lamento por ter sido tão fraca e me deixado levar tão facilmente ao fundo do poço. Lição? A gente aprende, mas corre o risco de esquecer. O que procuro fazer é lutar diariamente contra esse “monstro” e viver fazendo a lição de casa, para não esquecer o que aprendi: “só por hoje”.

Deixe uma mensagem para pais cujos filhos estejam em situação de dependência química.
Aos pais de dependentes químicos: jamais desistam de seus filhos. Nunca digam que não tem mais jeito. Lutem, mas não passando a mão na cabeça. Sejam rígidos, neguem o dinheiro, por mais desesperados que eles estejam, dizendo que vão se matar se não conseguirem o dinheiro. Mas não os coloquem para fora de casa, para que eles não morem nas ruas, dormindo em praças ou albergues, como aconteceu comigo. Isso só dificulta as coisas e aumenta a revolta e a mágoa, retardando uma possível recuperação. Procurem grupos de apoio aos familiares de toxicodependentes e orem muito. Também não aconselho internação involuntária, porque não se consegue ajudar quem não quer ser ajudado. Não percam a esperança.

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